Causos EsPCExianos - Época de sacrifícios (Gatão)

imagem de Otacilio - Gatão

          A gente sofria muito naquela época mas temos saudades, não resta dúvidas. A seguir alguns dos trechos de correspondências enviadas para meus pais:

          Escrito em 13 de março de 68, ano da matrícula, que foi efetivada na formatura de 18 de março com todos ainda a paisana.

          ...Quando eu cheguei aqui, da vez que eu vim para ficar, eu não estava entendendo nada do que deveria fazer, cheguei até a pedir ao telefonista daqui para ligar para aí, que era para eu pedir que reservassem uma matrícula no Verbo Divino para mim, pois eu tinha resolvido ir embora daqui...
          Aí então apareceu o tenente TATTON que é da mesma companhia que eu e me convenceu a ficar, dizendo que isto era porque eu estava com saudades de casa e que logo me acostumaria aqui na Escola.
          Eu achei que as razões dessa decisão repentina eram o que o tenente disse e porque eu não tinha dormido à noite e por isso não podia pensar direito, pois até parecia que eu estava doente...
          ... Nós ainda não recebemos roupa e eu estou somente com a que vim, então eu perguntei ao tenente se seria bom eu comprar alguma e êle falou que não precisava, pois ainda nesta semana talvez (ainda) receberemos roupa, mas mesmo assim eu irei aí buscar umas roupas. Aqui na escola, eu estou no melhor alojamento, que é o da 3ª Companhia, êle tem camas, colchões, travesseiros de espuma, armários com cadeados de dupla trave, teto de eucatex com lâmpadas fluorescentes, tudo novinho mesmo, só o cobertor que é um pouco ruim, pois é de lã grossa e espeta um pouco.
          Eu não sei se já chegou o telegrama que eu passei dia onze, pedindo 50 cruzeiros novos para inteirar com o que eu tenho aqui para comprar os livros, pois o preço aumentou, mas se não chegou ainda, peço que me mandem o dinheiro...

          Campinas, 1 de agôsto de 1968 (Em folha de caderno com carimbo de meu nome e número)

          Obs: “Usávamos esse artifício de carimbar o bloco de cartas para não perdermos as folhas para os mais antigos que sempre desapertavam na bicharada”).
          No dia em que eu vim para cá após o término das férias, depois que eu peguei o ônibus em São Paulo, tudo ia muito bem até que um pneu furou (traseiro). O motorista então andou mais devagar e passou em Jundiaí para trocar de ônibus.
          Eu cheguei aqui na escola às 22,20 mas a revista de camas ainda não tinha sido feita. Também encontrei algumas inovações na minha companhia tais como chuveiros elétricos,e ferros de passar etc...
          O que é de se notar agora é que o trote diminuiu tanto que posso até dizer que acabou.
          Ontem nós recebemos o sôldo que foi 14,60 cruzeiros novos...

          21 de abril de 1969 (Escrito em folha de bloco com o timbre da EsPCEx e meu número de aluno)

          Na sexta tivemos uma marcha de 18 Km e todos chegamos cansados. No sábado, eu e o Domenico (do segundo ano) acordamos as 04:30. Botamos a farda e pegamos o ônibus para a saída da cidade.    
          Tomamos uma média lá e as 6:00 começamos a nos virar em carona para ir até Santos. Nós pretendíamos arranjar uma para São Paulo e de lá para Santos. Quando eram 6:05 um carro com um casal parou e perguntaram se a gente queria carona e êles iam para Santos.
          No domingo, após o rancho do café viemos embora no mesmo tipo de condução que fomos, indo até a rodoviária da Luz. De lá nós pegamos um ônibus até a Via Anhanguera para pegarmos uma carona até Campinas. Mas dessa vez não demos muita sorte, de um modo geral, pois um carro azul (Esplanada) parou à nossa frente e perguntou se íamos até Campinas.
          Nós dissemos que sim e meu colega que estava entre mim e o motorista entrou sem mesmo reconhecê-lo. Quando ele já ia se sentando olhou para o motorista e então o reconheceu como o Ten Cel Alexandre, professor de História do 1º ano.
          Na hora não sabíamos nem o que falar ou pensar, mas depois de uns minutos tudo voltou ao normal exceto pela viagem meio silenciosa de S. Paulo até o Castelo.
          Ao chegarmos na escola foi a conta de trocar de roupa e ir para a formatura para o rancho do almôço. Não houve consequências disciplinares para nossa sorte.

          Campinas, 21 de junho de 1969

          Depois de tanto tempo sem escrever, motivado pelo excesso de provas durante as duas semanas próximas passadas e que durarão até exatamente 12 de julho, tive tempo para escrever enfim.
          Aqui vai tudo de bom à melhor graças a Deus. Ainda mais com “aquele cafèzinho” feito na hora tôdas as noites. Hoje chove aqui à noite, por isso não vou à cidade.Fiquei na escola para estudar. Temperatura aqui: 18 graus .Sôbre as notas está tudo ok, saída livre às quartas...
          Obs: “Eu possuía um jarro elétrico com o qual fazia meu Nescafé que era sempre acompanhado por “macetes” trazidos por amigos que compartilhavam do cafezinho da noite ou até com pães trazidos do Brochante”.

          Campinas, 30 de junho de 1969

          ...Terminei de tirar as fotos coloridas do filme que comprei e ficarão prontas terça-feira próxima, mas o preço não é tão colorido como as fotos e como o meu sôldo êste mês foi NCR$ 2,50 e o que eu tenho é aproximadamente 17,00 peço que me mandem 3,60 mais o preço de uma passagem São Paulo - B Mansa pela Viação Resendense pois nas férias que começarão talvez dia 16, eu não irei de carona.

          Campinas, SP, 12 de novembro de 1969

          Cheguei bem aqui na escola no dia 3, apesar da muita chuva que começou em Itatiaia.
          Aqui vai tudo bem; as notas também, exceto por Química que a minha média desceu para 3,8.
Agora que as provas começaram, estou estudando muito....
          Estamos tendo aqui, dias horríveis; uma hora há sol, outra há chuva, depois venta, faz frio.
          De novidade aqui só há o comandante. Ele está sendo rigorosíssimo na apresentação pessoal de cada aluno ou soldado. Isto é, tem-se que andar com as duas divisas, uniforme limpo, cabelo cortado, etc...
          Ele (o comandante Milton P. Teixeira Rosa – o Cebolinha) já desligou nesse mês, uns 10 alunos por cola, comportamento, etc...

          Otacilio - Gatão