
Causos EsPCExianos – Havia as ocasiões mais alegres...as aventuras...
A época era muito apertada em virtude da disciplina vigente. Para não faturarmos um LS (Licenciamento Sustado que impedia a saída à rua nos fins-de-semana), um Impala (Impedido na Ala ou Alojamento sem dele poder sair a não ser para as atividades previstas), uma detenção ou uma prisão, tínhamos que nos preocupar a cada instante, desde a alvorada até o silêncio.
Camas mal arrumadas, calçados mal engraxados, cinto sem brilho, gandola faltando as divisas em um dos braços, cabelo fora do padrão, falta ao rancho estando arranchado (constando na relação de quem iria comparecer a determinada refeição) ou comparecer sem estar arranchado, chegar atrasado a qualquer evento, faltar a qualquer atividade, mexer ou conversar estando em forma, conversar no alojamento após o silêncio e um montão de outros motivos mais. Fora a Escala Vermelha que era o serviço nos fins-de-semana e feriados impedindo por isso a saída à rua.
Contudo, quando não havia quaisquer desses impedimentos podíamos sair inclusive para fora da cidade. Nas poucas ocasiões em que eu não estava impedido de sair, combinávamos com outros amigos que também estavam liberados, para passeios em outras cidades, com a obrigação de nos apresentar numa unidade militar quando da chegada ao destino e antes de retornar para Campinas. Existia o Cartão de Licenciamento para a autoridade que recebesse nossa apresentação, apor sua assinatura e datar.
Era nos passeios próximos que vários amigos que tinham familiares morando em Estados mais longínquos e que por isso eram chamados de “laranjeiras” ou seja, ficavam sempre na escola, aproveitavam para dar uma descontraída indo para cidades de praias ou mesmo passear em São Paulo.
Havia ainda as opções urbanas, sem precisar viajar. Quem gostava de aviões ia até o aeroporto de Viracopos.
Quem preferia as máquinas envenenadas ia até o viaduto perto da estação ferroviária. Os ligados à ecologia podiam passar o dia no Bosque. Cinema, não tenho certeza, acho que havia dois: o Windsor e um outro. Os gastrônomos saiam para comer uma Pizza na pizzaria que havia perto do Castelo. E várias outras opções que a Cidade das Andorinhas oferecia. Havia também aqueles que possuíam namoradas na cidade ou que residiam em Campinas.
Destaco das correspondências enviadas a meus pais, alguns pequenos trechos versando sobre o assunto ligado principalmente a passeios.
Campinas, 6 de agôsto de 1969
...Sexta-feira passada nós tivemos a prova de Português na parte da tarde, mas ainda não saíram os resultados.
À noite, depois do rancho, eu e um colega da minha sala, aquele moreno (Rikillss) que está no retrato que tirei no acampamento, fomos para São Paulo, ficando num quartel da PM, para na manhã seguinte irmos para São Vicente.
Saiu tudo como havíamos planejado, exceto que não deu para irmos à praia, pois de vez em quando dava uma chuva fina que durava uns 10 minutos. Fomos também até Santos que é perto...
Campinas, 4 de outubro de 1970
...Aqui, em consequência da mudança brusca de tempo, somente uma gripe e nada mais.
Estamos no meio de uma tempestade de provas, mas até agora, felizmente, nada ocorreu de mal.
Por telefone eu havia dito que no dia 14 haveria licenciamento e confirmo agora que no dia 15 irei com outro colega da mesma sala até aí de onde iremos para Angra onde já deverão ter 4 outros que irão no dia 14. Isto se não houver imprevistos como o tempo, por exemplo.
Não sei, mas prevejo chegar aí das 11:00 até o meio-dia com meu colega e deveremos ir no mesmo dia para o Colégio Naval...
Obs 1: “Naqueles dias que passamos alojados no CN estranhávamos que o Oficial de Dia era chamado por OSCA – Oficial de Serviço do Corpo de Alunos – Era diferente também o tratamento no rancho enquanto estávamos acostumados com o “berro” do Oficial-de-Dia comandando Rancho à vontade!, lá o comando era Sentai-vos..”
Obs 2: “Naquele passeio, sendo recebidos atenciosamente pelo pessoal do CN, ainda pudemos usufruir uns barquinhos chamados de Canadense para remar podendo ir até a praia na cidade. Podíamos também, saltar num trampolim que havia na ponta do cais em frente ao colégio. Não utilizamos a piscina do colégio. Não deu tempo. À noite fazíamos uma longa caminhada até a city e assim pudemos provar de cada um dos drinques do Farracho, Degrau e Mar Virado, que certamente hoje não existem mais. Shopping não havia. Hoje sim, neste ano de 2009 tem um baita shopping, o Pirata’s Mall que tem de tudo. Até heliporto e píer”.
Eu sempre pertenci à turma que andava muito de carona. Às vezes num Ford Galaxie ou num Dodge Dart.
Outras vezes, num Fusca e até mesmo em caminhão. Quando saíamos de Campinas e chegávamos em São Paulo se já à noite, por ser mais difícil conseguir uma caroninha no nosso “point” nas proximidades garagem da Viação Cometa, na Dutra, onde tinha um posto da Policia Rodoviária que fazia com que os veículos passassem mais devagar, trocávamos o uniforme pelo traje civil utilizando o banheiro da então Estação Rodoviária da Luz e a seguir comprávamos nossas passagens em ônibus convencional.
E foi numa televisão preto-e-branco da rodoviária que em 1969, enquanto esperava o horário das 23 horas, o terceiro ônibus do dia para B Mansa, que assisti pela primeira vez duas músicas que nunca mais esqueci, num show com a Petula Clark, de vestido longo e todo cheio de brilhos: Downtown e Don't sleep in the subway. Foi uma sensação indescritível de felicidade juntando o som daquelas belíssimas melodias com a satisfação de estar me afastando (mesmo que por pouco tempo) do sacrifício que era a escola, entrando num ônibus quentinho e indo ver os meus pais e irmão e demais familiares.
Numa dessas idas nos licenciamentos, após alguns amigos terem desembarcado em Resende, cansado, peguei no sono e passei dormindo pela rodoviária de minha cidade, só indo acordar em Volta Redonda, 15 Km após, por volta das 4 horas da manhã. Desembarquei e esperei cerca de duas horas para o início da circulação dos ônibus que ligavam as duas cidades e assim poder retornar para o meu destino. Somente algum tempo depois fiquei sabendo que os ônibus ao chegarem no ponto final que era em Volta Redonda, retornavam vazios para B Mansa onde era a garagem da empresa.
E por falar em músicas, eu sempre estava com meu mini radinho de pilha. Ouvia muito a Excelsior 670, a Máquina do Som, de São Paulo e à noite (só pegava de noite) a Mundial 860 do Rio. Chegava a ponto de mesmo como Plantão da Hora no corredor de entrada do vestiário, na madrugada (normalmente no terceiro quarto) colocar meu mini rádio AM dentro do capacete e sobre aquela rede que apoiava na cabeça, ouvindo bem baixinho para o ronda não perceber. Nunca dormi na hora. Só ficava sem meu pequeno som quando de plantão na área da pérgula ou do concreto beach, pois tinha que estar atento ao máximo já que havia a possibilidade de aparecer um rondante sem-cabeça, que nunca vi apesar de alguns amigos jurarem que ele existia. Teve um dos colegas que chegou a disparar seu mosquetão ponto trinta para o alto, apavorado por ter visto tal rondante. Ele jurava que o tinha visto.
Nos acampamentos, para não ficar sem meu sonzinho na barraca costumava espetar a baioneta ou um prego numa árvore próxima de onde ligava um fio até o rádio na barraca. Pegava tudo. Até resfriado.
Para ouvir na sala de aula eu fiz um similar de galena (sem gilete, sem bobina e sem alfinete com carbono de lápis na ponta), mas usando apenas um treco chamado transistor (BF494) que peguei na lojinha de meu pai e, adaptando um “earphone” dava para ouvir apenas a Educadora de Campinas cuja torre via-se da janela da sala. O bom é que não precisava de pilha e seu tamanho minúsculo (numa caixa de fósforos) facilitava não ser “plotado” pelos professores.
Ainda hoje sou um apaixonado pelos receptores AM, e passei parte do meu tempo na ativa como operador de transceptores como PY Classe B e PX. Sempre gostei de rádio.
Hoje, nesse início de século 21, já tenho um acervo com cerca de dez mil músicas mp3, todas sucessos da década de 70 ou pouco antes e pouco depois, as quais quando ouço, transportam meus pensamentos àquela doce época da nossa juventude, lembrando de inúmeras passagens tanto felizes como tristes, e, lembrando principalmente de todos os amigos que fiz na minha estada pela escola, que sem dúvida contribuíram com o seu valoroso apoio e estímulo, muito mais que os próprios instrutores, não desfazendo, contudo de nenhum deles e nos quais sem dúvida nos espelhávamos para moldar nosso futuro. Somente com o auxílio de meus amigos de salas de aula, de Companhia e das outras duas Companhias foi possível iniciar a minha carreira. Acho que naquela saudosa escola, em nossa época, existia mesmo que ocultamente, o mesmo lema utilizado pelo Athos, Porthos, D”Artagnan e Aramis quando diziam: Um por todos e todos por um.
Para completar meu acervo musical estou agora reunindo jingles, propagandas e locuções da citada Rádio Mundial, extinta em 1992, já tendo algum material, e que será intercalado com as músicas de época, já selecionadas, para compor um CD.
Otacilio - Gatão