As brigas com o "Casa Velha", ou, aos Mestres com carinho.

              Quando o mestre é rígido na cobrança de seus ensinamentos, o aluno normalmente chia. Sem conhecimento de causa, evidente, pois não tem a ideia do objetivo do mestre. Este sabe bem onde quer chegar.
              Pois na Prep era assim. Tínhamos professores rígidos e outros , se é que podemos afirmar nestes tempos bicudos, democráticos. Um deles era um professor de Descritiva, Sebastião. Era um civil muito bacana, inteligente, que nos passava as lições com uma surpreendente tranquilidade de dar inveja no grande Ten Cel Dirceu Bonecker de Souza Lobo. Deste, as tiradas maiores eram na entrega das VE, VCs. Começava dizendo:
              - Vou começar entregando para o pessoal da segunda época- eram os que ficariam na segunda época daquele ano.
              - Agora para os da oral, ....agora para os da segunda época da repilândia, ou seja, na segunda época do ano que repetiriam. E não dava outra.
              Graças a Deus sempre tirava boas notas na Descritiva e nunca fui citado. Não esqueço um integrante da A-8 , lá do Maranhão, que fazia tudo certinho, só errava a Linha de Terra, e aí .....
              Também tínhamos no Inglês um professor duríssimo. Nós o chamávamos de Pistoleiro ante sua fama de excelente atirador. Dizia-se que acertava o alvo de costas e olhando um espelho! Já entrava em sala falando o idioma do Shakespeare. Quem não tinha base se danava. Não dá para esquecer o Basilio, com suas aulas no laboratório de Química. E o Mantissa, de Álgebra? Só o Carvalho Junior tirava mais do que quatro nas suas provas. Não esqueço uma solução que apresentou para uma questão que ninguém acertou.
              - É simples: Cochi.... e durma-se com o barulho desses. Era uma questão sobre determinantes. Eu , depois daquela passei a gostar de Matemática, tanto que o Grenville- estudado na AMAN - foi meu livro de cabeceira, em termos, durante muitos anos até que minha filha o levou para a faculdade. Confesso que tenho saudades dele.
              Quem não lembra do saudoso professor de Química, Klava, recém chegado ao clube dos mestres da Prep e sua primeira aula na A-8 com o Sato-245 prestigiando? O Sato era da A-7 e foi para lá só para tumultuar. Que japonês tinhoso!
              Deste também uma particularidade: sabia de tudo em termos de provas, tanto que ficou mais um ano no primeiro ano para passar seus quentes bizus para a bicharada. Aliás, tenho mais uma estória dele que deixo para outra oportunidade. Onde anda o Sato? Mato Grosso?
             E o Pires com seu processo mneumônico de decorar a tabela dos eletropositivos e negativos? FONCLOREBRIS  dos eletronegativos e o CEKABACANA MAGNIFICO ALUNODEZINCO FESTACHU E ASSIMCUMERPRATA PLATINA E OURO dos eletropositivos. Esse método ensinei até para minhas filhas. Oigaletê memória. Glória ao professor Pires.
              Mas o meu caso era com o professor de Português, que nós chamávamos de Casa Velha, por causa de uma poesia. Eu, por exemplo me recusava a decorar a poesia da Raquel.
           “Jacó servia a Labão...mas não servia a ele, servia a ela...” e assim narra a epopéia de Labão que queria casar com Raquel que,  pela tradição da época, deveria casar com a mais velha. Raquel era a segunda e então teve que esperar sete anos, no qual ficou servindo o pai de Raquel para poder casar.  Que coisa. Não é que o Casa Velha que quase me reprovou no terceiro ano por causas desta poesia? O outro problema era minha terrível letra. Quando apresentava os trabalhos já levava Zero. Ele nem lia. Passei na Oral de arrasto.
              Tempos bons aqueles que hoje colhemos inúmeros benefícios.
              Nossos velhos professores, velhos instrutores, velhos tempos nos trazendo saudades e colhendo frutos.
              O que devemos a eles é uma dívida impagável. Não se tem como pagar a “passagem” de conhecimentos.
              Também tínhamos professores militares. Podemos citar um de Português, major, que logo após chegar, foi ministrar uma aula e não parava de olhar para o pátio, na direção do Concreto Beach.
              Perguntei-lhe, como chefe de turma porque olhava tanto para fora.
              - É que é a Semana do Exército. Os soldados estão pintando tudo. No linguajar dos soldados "mexeu faz continência, parou pinta de branco" e eu deixei meu carro lá embaixo!
              É isso, meus amigos, saudades, saudades, e nosso reconhecimento aos antigos mestres!