Há um frenesi na escola militar, prédio imponente, de um róseo pálido com molduras brancas que o tornam diferente dos demais quartéis. Vinte horas, a alunada aprimora os vincos das calças, dá o brilho nos sapatos, os atrasados secam a ferro as polainas brancas. Os metais dourados são exaustivamente polidos até o resplandecimento. Os mais organizados já se recolheram aos aposentos, dispensando a ceia, carinhosamente apelidada de brochante.
Vinte e duas horas, quase silêncio. Uns doidos ainda na labuta. Chega o CDF da sala de aula. Estudar Cinemática no livro de Física do Dalton Gonçalves é necessário. Estudar é saber, é posição, domínio. As provas, dali a duas semanas, serão aterrorizantes para a massa, menos para os poucos privilegiados no intelecto. Por que são tão difíceis de entender a Física, a Química e a maldita Matemática? Ciências exatas, exatamente, morbidamente exatas. Deve ser por isso que ninguém gosta. Não aceitam os meio-termos. Por que tem que ser vê igual a vê-zero mais vê-tê? Quando eu for dono de um carro precisarei calcular tanto? São as perguntas e questionamentos evaporados dos cérebros das tantas cabeças das salas de aula.
Duas da matina. O corneteiro explode o silêncio com o toque de alvorada, anunciando mais um dia, embora bem prematuramente. Naquele bolo de alunos há um pequeno grupo de vinte e sete deles, repetentes do primeiro ano. São como gotas de óleo n’água. São eles um corpo estranho, senão vejamos: na visão dos demais primeiranistas, são os colegas que não deram certo; aos veteranos do 2º ano, amigos que se desgarraram e, portanto não fazem mais parte do corpo social. No olhar do 3º ano, são o que não são. Para os instrutores, fonte perene de aborrecimentos. São vagabundos. Os professores os têm como empecilho. Afinal foram eles os reprovadores, como dizem os alunos; que refutam com o contra-vapor cáustico — se boa parte foi aprovada, então a culpa é dos alunos, sempre dos alunos. São vagabundos. Na verdade são diferentes. Ninguém os quer, alguns os detestam. Criaram até um bordão: 69 é f...
A rejeição produziu um poderoso adesivo pouco plástico que os uniu. As brincadeiras, os achincalhes, as resoluções das desavenças, são as expressões de sobrevivência e, simultaneamente, potencial risco ao derredor. Os apelidos: Clark Kent; Bacá; Jacaré; Fofoqueiras; Siri; Mikimba; Mary of sky; Tatu etc. Pois bem, na véspera do evento, um desfile comemorativo em Ribeirão Preto, o Tatu sentiu-se mal desencadeando um desarranjo intestinal. Nada de mais, tudo se resolve. O desfile é muito importante e é imposição. Buscar o médico é sinal de embromação e malcaratismo. Pior: mancha mais anda a turma dos reps.
Duas e vinte. Todos em forma defronte ao refeitório. A túnica branca ficou no armário, como medida de segurança. Se sujasse, adeus desfile. O desjejum comporta café com leite, com gosto de queimado; pãozinho; manteiga; ovo frito; aveia e banana. O quebra-fome é poderoso e necessário, afinal o almoço se dará lá pelas doze horas. E o Tatu embarcou no ônibus empanturrado com a refeição, sem antes passar na enfermaria e pedir ao enfermeiro, um soldado recruta, uma “rolha”, comprimido para conter diarréias. O pesadelo. O aprendiz de branco enganou-se e forneceu quatro drágeas de laxante. Ato proposital? Não, claro. O erro era do posto médico que guardava todos os medicamentos em latinhas de papelão cor de amarelo velho e tampo de metal. Todas iguais. Trocar uma pela outra foi questão de momento. Preocupado com o embarque, Tatu engoliu tudo e se foi, satisfeito.
A viagem, para muitos é tudo curiosidades. Roncos denunciam os apegados ao sono. Cidade grande. Foguetório; fanfarras barulhentas, amadoras, monótonas; balões coloridos ao céu; povão nas ruas, com bandeirinhas e fitas verde-amarelas. A tropa, de branco e verde, se posiciona. A rapaziada atrai dois sentimentos opostos: dos homens, a inveja dissimulada e, das moças, os olhares rasgados, sorrizinhos e, das mais afoitas, um pequeno aceno.
Dez horas. O corneteiro, todo enfeitado, dá a ordem. Preparar para o desfile! Tatu sente que não vai agüentar. Passa o fuzil para o colega ao lado. Sai apertado no meio da massa humana. A casa mais próxima atende ao necessitado. Ufa, que alívio. Chegou no momento exato de partir para o desfile. O bumbo, agredido pela baqueta cabeçuda, responde, cheio. Lá vão eles. A banda, retumbante, entoa Washigton Post, de John Philip Sousa. A assistência vê a homarada imponente, jovem, passar incólume. Aplausos, muitos aplausos. O locutor, suado, enaltece a tropa.
Acabou. Todos satisfeitos, vão ao almoço, um churrasco oferecido pela prefeitura, no quartel da polícia. Arroz; carne melando de banha; vinagrete; maionese já bem quente e refrigerante. A fome torna tudo uma delícia. A alcatra, meio crua, desce fácil.
Terminou a festa. Cada um buscou o seu ônibus. À porta, o lanche para ser consumido na viagem de retorno. Chamavam-no de catanho. No saco plástico havia sanduíche de queijo com presunto, suco em garrafinha de plástico, chocolate e uma maçã. Tudo quente, montado na madrugada anterior. A verdadeira bomba alimentícia.
A tarde clara, sol vivo, o ônibus Mercedes Benz de motor traseiro, o famoso rabo quente e o vento fresco adentrando pelas janelas dava o ar modorrento levando ao cochilo reparador.Tatu sente, com freqüências aceleradas, que algo não presta nas tripas e tem de por para fora. Banheiro? Não há. Com dificuldade vai até o chefe do coletivo e pede para se aliviar nos matos margeantes à pista. Foi atendido. Vinte quilômetros e outra parada. Na quarta vez, o comandante nega. Chega de frescura. A dor aumente, a pressão avisa que não agüentará muito tempo. Desespero. O infeliz está lá no fundo do veículo. Não suporta mais. O colega pega o saco plástico tentando fazê-lo de vaso sanitário emergencial. Quando o traseiro anunciou a tempestade, não teve jeito: largou a “privada” e pulou fora. Bem a tempo. A imundície lavou as armas brilhantes, postadas e alinhadas no corredor. Quem deixou o lanche junto, perdeu tudo. O cheiro ardido, ácido, empestou tudo. Cabeças para fora das janelas. Xingações. Sabe-se lá porque, alguém havia levado o papel higiênico. O detalhe é que o precavido estava sentado na segunda fileira e não tinha coragem de se aventurar a levar o salvador papel à retaguarda. A solução foi desenrolar a bobina e, de mão em mão, se desenrolou até o infeliz. O fedor alcançou o motorista. Esbravejou muito e avisou que não ia limpar o ônibus, portanto, quem o sujou que o limpasse.
Os pedaços de papel encharcados foram lançados janela à fora. Respingaram nos bancos de courvin, àquela hora vazios, abandonados providencialmente. Aí vem um desavisado, ultrapassando o mercedão. Leva um bolo de papel empastado e marrom nos pára-brisas. Ficou para trás. Assim vai até acabar o papel. Param no posto da estrada. Todo mundo voou para fora, menos o cagão. Motorista, o comandante e alunos no pátio. O causador da confusão, de balde e vassoura à mão dana-se a limpar a borreira. Sabão, desinfetante e muita água lavam tudo: chão, armas e os bancos. São três horas de faxina. Limpeza feita, perfume de pinho aspergido, lá vão eles. Chegam noite adentro. Todo o comboio tinha sido dispensado e retornado à empresa dona dos ônibus. Foi o desarranjado para a enfermaria de novo. Ao conversar com o médico, descobriu-se a verdade. Não tinha como consertar a desgraça oferecida pelo auxiliar de saúde e, na confiança, aceita pelo paciente. Daquela foi poupado da perda do sagrado fim de semana.
O tempo fez-se senhor e esparramou aquela turma, que adorava Neil Diamond, sucesso com I’m the Lion; e Christie, com as baladas de Yellow River e San Bernardino. Aquele episódio ocorreu em 1970, onde se tinha a turma de meninos-homens, sobrecarregados de responsabilidades que sequer tinham noção. Daqueles reps, uns poucos seguiram no militarismo. Talvez a desilusão do sofrimento não merecido, a incompreensão daqueles que tinham obrigações de apoiá-los ou mesmo medo de se transformarem em prosseguimento dos erros cometidos os tenham levado a abandonar a farda, tão duramente conquistada e levada a peito. A maioria, incluindo-se aí o Tatu, enveredou por outras empreitadas. Mas ficou a marca.
Esteja onde estiver Tatu, você jamais será esquecido.