Tenho dito!

              No mais avançado da vida, quando já cumprimos bom espaço do percurso sentimos, no meio do pó da estrada, que vultos nos acompanham. Não conseguimos distinguir rostos, fisionomias. São apenas seres difusos, mudos. Ao tentarmos nos aproximar, eles se afastam.
              Continuamos nosso caminho; eles estão lá, na poeira. As figuras são, na verdade, os amigos e as pessoas com quem convivemos no passado. Não temos como mudá-los, retocá-los. Ficaram na história de cada um, na poeira particular que cada ser humano levantou.
              As figuras se apresentam de duas formas distintas: as altivas e as decadentes. As primeiras são aquelas que, nos piores momentos, se ombrearam conosco, não se enojaram em pisar no lodo para se nos igualar e tentar resgatar os irmãos de alma. Também são as que desprenderam amizades doces, doaram-se à humanidade e mostraram o caminho da salubridade e do bom pensamento. Assim como não se constrangeram em apontar os erros, as falhas e ofereceram propostas de correção a cada uma delas. Foram pacientes em servir de cobertores nos períodos das relações gélidas com o mundo. As decadentes seguem-nos, ora olhando por cima, ora de lado. Foram as pessoas aproveitadoras dos bons momentos, da fartura, da alegria, das horas perdulárias, dos risos fartos, das imoralidades momentâneas. Nunca se envergonharam em propor ações de ganhos duvidosos, em que teriam parcela generosa no butim decorrente, como autora intelectual dos atos. Destilaram ódios e maldades, travestidos de respostas justas e honradas a possíveis atos agressivos contra nossa integridade física e moral. Foram e são as almas montadas por anjos caídos e mantidas ativas por energias negativas. Algo, porém, as destacam: tem braços longos, espinhosos e mãos pequenas. Há lógica. Os braços nos envolveram e grudaram enquanto puderam usufruir nossa saúde financeira e status soberano; as mãos, se estendidas, não tem capacidade de ancorar ninguém, de empunhar armas de lealdade. Mas, por que ambas nos seguem? Por não termos sabido distingui-las no tempo exato e discriminá-las. É o fardo que temos que carregar para o resto das nossas vidas.