
Foi num desses fins de semana em que eu não estava de escala de serviço (e nem punido ou em véspera de provas) na EsPCEx, que aproveitava para viajar de Campinas a Poços de Caldas - MG, para arejar um pouco a cabeça e visitar minha mãe.
Viajava pela Viação Cometa e o percurso durava de duas horas e meia a três horas e alguns minutos, dependendo se o ônibus ia direto ou entrasse em Mogi-Mirim, Mogi-Guaçu e São João da Boa Vista, cidades que ficavam fora do eixo da rodovia.
Saía na sexta-feira à noite e regressava no domingo à tarde. Havia ônibus de hora em hora, linha São Paulo-Poços de Caldas. Costumava embarcar no regresso no horário de 17 h.
Certo domingo, já estava eu cursando o terceiro ano da Prep, "veterano experiente", resolvi ficar mais uma hora em Poços e comprei a passagem para o horário de 18 h. Minha mãe ficou preocupada, pois sabia que, a partir das 22 h, quem adentrasse o portão da Prep era anotado como atrasado.
- "Ora, mãe, não se preocupe. O ônibus das 18 chega às 21 h em Campinas e dá tempo até para eu pegar um circular para a escola. Se atrasar um pouco pego um táxi e rapidão chego lá."
- "Meu filho, e se o ônibus quebrar ou furar um pneu, vai se atrasar. Você vai ser punido".
- "Mãe, não se preocupe. "Meu santo é forte". Não vai acontecer nada. Faz três anos que faço esta viagem e nunca quebrou. A Cometa tem ônibus muito bons."
E embarquei neste horário. Depois de uma hora e meia de viagem, rodando tranquilamente na rodovia escuto um forte ruído de algo que, ou quebrou, ou se soltou. Olho o motorista e o vejo mexendo na alavanca do câmbio, ao mesmo tempo que acelerava o motor: "Vruuuummmmm, vruuuuuummm", mas o veículo perdia a velocidade. E foi diminuindo, diminuindo, e toca a acelerar a rotação do motor e a mexer no câmbio e não engatava nada! Até que ele não teve outra alternativa a não ser parar no acostamento. O motorista desceu e abriu o capô do motor, lá atrás. E voltou dizendo que haveria atraso na viagem de mais de uma hora, pois quebrou o câmbio e teria que pedir socorro ao próximo ônibus que passasse e, inclusive, fazer o transbordo dos passageiros.
Naquela época não existia o telefone celular e nós estávamos na rodovia no meio do nada! Nem uma luzinha de um sítio ou de uma fazenda se via. Um breu total. O remédio foi esperar.
E depois de uma hora parou outro ônibus da empresa e levou todos os passageiros. Sorte que houve lugar para todos. Chegamos em Campinas às vinte e duas horas e trinta minutos.
"Pronto, já me considero punido no próximo fim de semana", pensei.
Mas aí o motorista, que me viu fardado e ao tomar conhecimento de minha situação, disse que eu poderia passar no guichê da Cometa e solicitar um memorando, relatando o que aconteceu na viagem. Seria uma tentativa de se justificar perante o Cmt Cia. E foi o que eu fiz.
Pensei: "Explica, mas não justifica - é o que o capitão vai me dizer".
Fui anotado pelo permanência no corpo da guarda da escola e, na manhã seguinte, fui chamado pelo Cmt Cia e apresentei o memorando ao Cap Bianchi, sem esperança de escapar desta pois o "Alemão" era rigoroso na disciplina. Mas ele aceitou, para minha surpresa, com um sorriso irônico, dizendo que desta vez justificava.
E nunca mais duvidei da intuição de minha saudosa mãe, que já partiu para o outro lado da vida. Deus a ilumine e abençoe.