Rádio galena

               Quem não se lembra da preposa em 69, sem o reboco, parecendo estrutura bombardeada? Naquele visual desciam os imensos canos coletores das águas de chuva. O sem-dinheiro 31-465 viu naquilo uma perfeita antena para os pseudo rádios. Uma gilete velha, toco de grafite, duas bobinas confeccionadas de fios de cobre achados nos restos de fiação telefônica (os mais antigos lembram-se que as linhas tlf eram montadas em pares de fios envoltos em papel oleoso como isolante, mais tarde encapados em plástico) montadas uma sobre a outra, caixa de fósforos vazia, um diodo OA 79 (dos tempos de guaraná com rolha, nem existe mais) servindo de filtro de RF e retificador, um fone de ouvido tipo chupeta de alta impedância e muita paciência. E lá ia eu para junto das calhas, nos sábados, sentado nos fundos da Prep, perto da pérgula. Procurava um canto qualquer, raspava a zincagem dos canos, amarrava neles meus fios e ficava ouvindo uma das duas rádios AM de Campinas. Meu radinho galena era pródigo, sem pilhas, sem gastos. Durou bastante tempo o danado. Depois, nas férias, aperfeiçoei o aparelhinho com umas tranqueiras mais e chegava a ouvir emissoras de Sampa. A necessidade faz o homem mover mundos.

               O engraçado é que consegui montar somente um aparelho. Quando busquei adquirir outros diodos de germânio, não mais consegui. Com o tempo, minha peça de museu acabou se desfazendo e se foi e com ela um pouco da minha passagem pela EsPCEx.