Cometa “O Expresso”

               Como o grupo de alunos que se mandavam da Escola Preparatória nos Licenciamentos era muito grande, alguns alunos do 3º Ano faziam uma lista para serem preenchidas com os nomes dos interessados para fazer a locação de ônibus da empresa Viação Cometa. Principalmente para as cidades do Rio, Belo Horizonte e Curitiba. Os nostálgicos “Especiais”.

               Apesar do valor ser o mesmo dos ônibus de carreira, fazíamos economia no ônibus urbano e ainda ganhávamos um tempão, evitando deslocamentos. Normalmente, os ônibus ficavam esperando os alunos no interior da Preparatória, enquanto transcorria a Formatura.
               Terminada a formatura matinal, o embarque era feito rapidamente. E tão logo o ônibus saía da ”Prep” era passado um chapéu para arrecadar “o almoço do motorista” - o almoço era prá ser feito em outro dia, naturalmente, pois naquele dia todos queriam chegar a casa o mais cedo possível.
               A caixinha na realidade agia como se fosse um peso suplementar ao pé direito - no pedal do acelerador - do motorista. Em suma: que ele baixasse o “Bambú”. A caixinha, por sinal bem generosa, dava para um banquete com toda a família.
               Durante o trajeto, dificilmente eram feitas paradas e quando as mesmas aconteciam, eram muitos rápidas. Com isso o tempo de viagem era em muito encurtado.
               Já estávamos acostumados a ver aqueles Morubixabas com motor Volvo dos Cometas trafegarem em altas velocidades. Naqueles anos não existia nenhum controle de limite de velocidade.
               Certa vez, sentado na frente do ônibus, vi o motorista ficar em grande apuro ao entrar com excesso de velocidade em uma curva na descida da Serra das Araras. O ônibus tremia todo, sacolejava com violência ao ter o motorista acionado os freios principais, o freio motor e reduzindo a marcha para poder concluir uma curva.  
               Eu já de pé, trêmulo, pude ver passar junto ao pára-choque dianteiro do ônibus diversos pilares de sustentação de um guarda-corpo (mureta de concreto) para proteção de um precipício. Fiquei congelado ao ver a ribanceira enorme que se apresentava para mim de dentro do ônibus.
               Mas o retorno à Escola era completamente diferente. Ninguém queria embarcar. Os ônibus ficavam parados no Ministério do Exército, na rua entre o Palácio Duque de Caxias e o Pantheon, paralela a Avenida Presidente Vargas no Rio de Janeiro.
               Muitos se despedindo dos pais, parentes e amigos, outros, os mais retardatários recalcitrantes, por causa das namoradas. Era uma tristeza só - tudo eram lágrimas.
               Um desses retardatários era o Sylvio, 289, o “De Bonis”. Aquele era triste. A galera dentro do ônibus ficava gritando na janela, “Sylvio, larga o osso!”
               É evidente que com tamanha morosidade, passamos a chegar com atraso à Preparatória. Tanto que em um licenciamento, os alunos com destino ao Rio foram ameaçados de ficarem detidos por dois licenciamentos, caso chegassem atrasados novamente para a formatura matinal.
               Apavorados com a ameaça, combinamos antecipar o regresso a Escola em uma hora e meia, e que embarcaríamos o mais rápido possível tão logo o ônibus chegasse.
               No licenciamento seguinte, foi dito e feito. Todos chegaram com a antecedência prevista a área de embarque no Ministério do Exército e como o de sempre todos ao mesmo tempo fazendo um relato do que havia feito, contando com detalhes, o fim de semana. Aquelas intensas “pagação de mistério”. Papo prá lá, papo prá cá e cadê o ônibus que não chega?
               O tempo foi passando e o atraso já era superior a duas horas. O nervosismo e o desespero já haviam tomado conta de todos quando o ônibus chegou.
               Enquanto todos os alunos embarcavam rapidamente o motorista fez um breve relato de que o ônibus teve um problema mecânico e por não ter outro ônibus disponível, o problema teve que ser solucionado.
               O ônibus parte. Dentro dele um silêncio sepulcral. Não tenho dúvidas de que existiam alguns colegas, no silêncio da noite, em um choro solitário. Pois era praticamente certa a punição, com a perda do direito de sair da Escola nos dois licenciamentos seguintes. Foi a nossa viagem mais tensa naqueles tempos.
               Como de praxe o ônibus pára no restaurante do Mirante da Serra das Araras para o cafezinho. (Hoje isso não seria possível, pois com a duplicação da pista, a subida é por outro caminho. Fecharam até o tal Mirante). 
               Mas desta vez ninguém desceu. O motorista do ônibus se afasta alguns metros e não vendo ninguém descer do ônibus, como também era praxe, retorna ao veículo e pergunta: Vocês não vão descer? Imediatamente ele é informado de que todos seriam punidos, por chegar mais uma vez atrasados, e que com isso iriam ficar sem poder viajar por dois licenciamentos.
               Rapidamente o motorista falou: “Me dá só um tempinho para ir ao banheiro e tomar um café”. E saiu correndo.
               Como já contei, eu estava acostumado a ver esse “Bichão” correr. Mas naquela noite acordado, sem sono, puder ver o Morubixaba velho de guerra, rosnar, rugir como um grande animal ferido, alucinado engolir a Via Dutra bufando, sacolejando para tudo que é lado sem descanso.
               Se alguém disser que algum ônibus fez o percurso do Rio a Campinas em um tempo menor, sem vacilar, eu aposto tudo. É impossível!!! Do jeito que ele percorreu a Dutra. Eu acredito que durante muitas horas ele esteve próximo dos 160 Km/h. Foi em tempo record com certeza.  Naqueles tempos ultrapassar o Cometa de carreira; que tinha hora de percurso fixo, com um automóvel comum já era muito difícil, imagine ele com liberdade de tempo e velocidade.
               Com esse feito, inacreditavelmente conseguimos chegar a tempo para a formatura e podermos assim desfrutar dos licenciamentos seguintes.