Naqueles dinossáuricos idos de 69, havia um corneteiro já antigão cujo nome não recordo mais, que eu tinha como um virtuoso nas "chamadas" de corneta. Coisa rara de profissional. Não foi nem uma e nem duas vezes que eu parei nas escadarias próximo da enfermaria para escutar o cidadão anunciar o "Silêncio". Eram em três tempos, que poucos sabiam entoar. Pois bem, aquele cabo era perfeito na sua função. Meio gordo de aparência, quieto, de poucas palavras, com um peculiar óculos de hastes prateadas e lentes escuras, fora de moda para a época, não dizia uma qualidade específica fora das lides da música.
Num fim de semana, o glorioso aqui estava de serviço de guarda do quartel, nem me lembro se na temerária garagem (olha o capitão sem cabeça...) ou no portão das armas, tanto faz, o frio era o mesmo. E o tal cabo junto. No domingo, saindo do malfadado serviço, senti que algo iria acontecer por ali nas caras do arco da entrada da preposa. Um soldado magrelo entrou em discussão com o corneteiro por um motivo que não era de minha competência ou sabedoria. A coisa evoluiu para o desaforo e ofensas. O mais moderno fez uma tremenda besteira: num momento de raiva largou um - "Corno!". Foi a conta. O cabo de aparência adiposa deu um nó no folgado em questão de segundos, deixando-o inerte no chão. Parecia que um trator havia passado por cima do infeliz. O Of Day partiu para cima e já queria prender o sisudo cabo e, então, o adjunto esclareceu o problema e tudo se acalmou. O soldado foi conduzido à enfermaria para ser recolocado em condições de falar, pelo menos. Aí veio a explicação da ação do cidadão ofendido: era nada menos que campeão das OM do Estado de Sampa, de judô, categoria peso-pesado. Se era ou não corno, ficou por ali mesmo a resposta. Ninguém mexeu com o quieto homem, ao menos enquanto se lembrasse dos atributos desportivos e, nas contendas, em dar nó nos adversários.
Não ficou por muito tempo na Prep. Um belo dia, numa das visitas das autoridades, eis que o comandante da 2ª DE (ou ID/2 - Infantaria Divisionária? Nem sei o que era naquele tempo), ouvindo os toques do cabo gordo, deu a ordem de "eu quero esse corneteiro lá comigo" e o levou para a capital. E, com isso, eu fiquei sem ouvir a melhor execução de um toque de silêncio ou de alvorada, dos tantos que pude ver e ouvir por esse Brasilzão afora.