Resolvidos a permanecer mais um ano de uma divisa no braço, fomos reunidos na Primeira Companhia, em 1970. Lá estavam os novos colegas e mais uma turma, a A-1, de exclusivos aperfeiçoandos, como eu, da ou "do" A-9. Final do mes e chegou o Dia D. Dia da grana curta. É bom lembrar aos mais esquecidos que recebíamos em envelopes de papel a "merrequinha" mensal, que nem dava para uma escapulida lá na Vila Formosa (acho que era esse o nome do recanto), no Viracopos.
Um nosso colega, que prefiro omitir o CPF, veio roxo de raiva me mostrar a resultante monetária de seu desempenho como militar-aluno: um punhado de moedas. Me rachei de rir do coitado, que veio até mim na busca de consolo e levou uma estrondosa risada de volta. Passado o momento hilário, fomos ao Sgt Furriel buscar explicações. Mandou-nos ao cabo Mattar (que era oriundo de Piraju - SP), auxiliar do graduado e também armeiro. Aí veio a justificativa: foi descontado o meio pano de barraca que estava faltando no escaninho do colega repeteco. Tudo bem se não fosse no primeiro mes do ano, nós não termos ainda entrado nenhuma vez na reserva (e ninguém entrava mesmo) e não termos tido quaisquer instrução que envolvesse tal material. Não adiantou nada ponderar, que o desconto já estava consumado.
O sargento deu a ordem e isso bastava. Falar com o comandante de pelotão ou de companhia daria no mesmo. Aliás, este era de Cavalaria, tinha a boca meio torta devido a uma bolada de jogo de pólo (coisa de cavalariano). Sei que chegou ao generalato, posteriormente. O nome me falha a memória no momento.
E assim, alguém embolsou meio pano de barraca, milagrosamente transformado em dinheiro de aluno.
Alguns anos-luz depois, em 2000, saí de Floripa e fui a Piraju com a família, a convite de um cidadão, para conhecer a cidade e também lançar linhas na represa de Xavantes. Lembrei-me do dito cabo Mattar e relatei ao amigo que conhecia uma cria da cidade, sem citar o evento nefasto. De pronto, meu anfitrião respondeu que, de fato, havia uma família com esse sobrenome e que, inclusive, tinha um militar do EB, já antigo, no contexto. Pensei bem e disse-lhe que deixasse para lá. Não valia a pena rever o mão leve, nem que fosse para desmascará-lo. Que ficasse curtindo umas poucas notas do ex-aluno, na época, um tenente coronel aposentado, residente em Campinas. Foi a melhor coisa que fiz lá em Piraju que, traduzindo ao idioma pátrio, é Peixe Amarelo. Pirá - peixe, Ju - amarelo. Devido à fartura de dourados nos antigamente, agora extintos.