Trotes - relatos

imagem de Henriques - 442

                    Atendendo ao convite do Mauro - Siri, relato alguns trechos de cartas que escrevia à minha mãe, falecida mês passado, a respeito de trotes e brincadeiras a que nós, alunos do primeiro ano, chamados de "bichos", recebíamos dos "veteranos', alunos do terceiro ano. Os do segundo ano, chamados de "calouros", não nos davam trote. Nem os "réps", repetentes do primeiro ano, denominados "aperfeiçoados", no curso da escola.
                   Graças ao zelo de minha mãe, que guardava todas as minhas cartas, pude rememorar algumas passagens, algumas tristes e outras cômicas, dos trotes na EsPCEx.
                   Nem é preciso dizer que os maiores trotes que recebi foram as famosas "chulipas" e "peitômetros", ambos de uma estupidez tremenda. Isto eu me abstive de relatar nas cartas, para poupá-la de preocupações e aborrecimentos.
                   Quem foi de Prep sabe o que foram estes trotes, mais parecidos com torturas, aplicados por "recalcados" e frustrados, de baixo nível intelectual e má formação moral.
                   Porém, havia outros mais leves, ou, como diríamos hoje, mais "light".
                   Quando estávamos no primeiro ano, em 1969, cada companhia de alunos agrupava alunos dos três anos, o que facilitava em muito os trotes. No ano seguinte, foram separados, cada ano em uma companhia, tornando menos fácil dar trotes. O que não quer dizer que foram extintos, só dificultava um pouco e a vigilância por parte dos oficiais aumentou.

                   Abaixo, alguns trechos das cartas citadas:

                                             Campinas, 5 de Março de 1969

                   Minha querida mãe,
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                   Recebi trote que não foi brincadeira. Mas os trotes diminuíram bastante pois o comandante deu uma chamada nos veteranos. Trote é proibido aqui. No mesmo dia em que o comandante falou, nós do primeiro ano ficamos mais aliviados. Isto porque podíamos andar pelo vestiário mais à vontade, sem preocupações. Quando os trotes estavam "estourando", os "bichos", como somos chamados, saíamos do refeitório e iamos direto para a rua sem ao menos escovar os dentes. Mas, isso antes de começar o ano letivo. Se fôssemos para o vestiário, os veteranos chamavam-nos para limpar o seu armário, organizar a sua roupa nos diversos compartimentos, engraxar sapatos, coturnos, limpar fivelas, fazer faxina num setor de armários, pregar botão na sua farda, pregar divisas na gandola e túnica, fazer faxina no alojamento e arrumar as camas.
                   Houve um dia em que os veteranos chegaram em massa, por término das férias. Mas eram filas enormes de táxis entrando na escola. Aí então nos chamavam para carregar as suas malas. Se eu fôsse lavar minha roupa, ajuntava aquela pilha  de peças que os veteranos traziam para eu lavar. E tinha que obedecer. E passar as roupas no ferro elétrico também. Não foram moles os primeiros dias.
                   Teve uma noite em que me acordaram três vezes: a primeira às 23 horas; a segunda à 1 da manhã. E nestas duas primeiras vezes mandaram eu ficar em posição de sentido, fizeram inúmeras perguntas e ficaram me torrando as paciências. E a terceira vez que fui acordado foi às 3 da madrugada. Aí me puseram de plantão, ficar vigiando o vestiário, rodando para lá e para cá. Fiquei até às 4 da madrugada. Foi aí que eu consegui dormir um pouco, até o toque da alvorada, sem ser incomodado.
                  Outro trote que eu recebi foi de um veterano que me entregou uma reportagem do jornal. Ele me mandou furar tudo quanto era letra "o" na reportagem. Fiquei duas horas furando os "ós" com um palito de fósforo. Depois ele me mandou contar quantas letras eu havia furado. Deu quinhentas e tantas. Levaram-me para tomar banho de água fria às 22 horas, quando já me preparava para dormir. Muitos alunos do primeiro ano solicitaram desligamento da escola pois não aguentaram. Hoje, com o início das aulas, está mais calmo, mas de vez em quando é que vem um trote, sem a intensidade de antes.

                                             Campinas, 12 de Abril de 1969

                  Minha querida mãe,
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                  Ontem eu ía sair do vestiário quando um veterano me chamou para eu engraxar seu sapato, e percebí então que uma série de sapatos foram aparecendo. Engraxei tudo! Hoje só preguei uma divisa de um aluno do terceiro ano.
                  O que eu quero dizer é que os trotes são mais intensos entre meio-dia e meio e 1 hora da tarde, quando há uma formatura à 1 hora e todos têm que estar com os sapatos limpos. Nos outros horários, muito raro.