O Siri desencadeou, o Henriques colocou pilha e então vamos lá.
A visão de alguns oficiais da época, que viam o trote como elemento integrador (???) e facilitador ao ajustamento das lides militares era, no mínimo, um desvairio.
Trotes de brincadeira, de acolhimento, são raros em qualquer ambiente social. Pode até ter o sentido de festa, porém, quase que na totalidade, descem para os desejos reprimidos dos frustrados e aí, vemos "estudantes" de faculdade maltratando pessoas e satisfazendo-se em orgasmos psicóticos. Quantas e quantas vezes vemos, na mídia, de excessos com casos de morte (lembrar-se do chinês morto em São Carlos) e que terminam no esquecimento? E quem sofreu as devidas torturas? Bem, são vários os caminhos: absorver e buscar na religião ou outro apoio uma forma de expurgar aquelas agressões; retaliar, com os meios disponíveis, os agressores (podendo chegar às vias de fato); dar continuidade ao sistema, descarregando no próximo o que sofreu utilizando-se das mesmas ferramentas (os tais peitômetros, chulipas, coquetéis molotov).
Eu cresci no Rio, no bairro da Sulacap, defronte à antiga Escola de Aeronáutica, formadora de oficiais da FAB. Ainda moleque, sabia dos exageros dos veteranos e a omissão por parte daqueles que deveriam dar cabo àqueles roteiros funestos. Cadetes comendo cigarros acesos, surrados, obrigados a levar roupas dos antigos para casa para que a mãe do bicho a lavasse, cobrança de "brindes" para apaziguar as sandices e por aí vai. Então, a tradição é muito antiga e tomou rumo de estágio obrigatório para a inserção na profissão. E não fica só na escola de formação. Quem não se lembra de trotes idiotas quando da chegada do aspirante nas OM? Sargento no lugar do capitão, fazendo palhaçada com o recém admitido... Recordo-me que, quando cheguei no meu primeiro quartel, senti que seria "recepcionado" com babaquices. Fui seco e claro: no café da manhã veio um tenente metido a doido me provocar, e recebeu um coice verbal e bom tom na frente do comandante. Deveria ser diferente? Cada um tem a forma própria de se defender. O tal trote morreu no rancho, no primeiro contato.
A companhia do Mauro foi a que mais forneceu réps para o ano de 70. Todo mundo sabia que lá na segunda o trote era quase que liberado. E ninguém fez nada. Quando não obteve sucesso na empreitada tornou-se um vagabundo, um vadio. Duas turmas de vadios, de onde eu fazia parte, um exagero. E ninguém fez nada. Quem tinha de ver e tratar das correções, face o esbulho apresentado - a Divisão de Ensino, setor primordial no acompanhamento do corpo discente e docente (que pouca gente executa), trancou-se nas suas salas. E ninguém fez nada. E os réps? Aaah, sim! A ganga retida na peneira das jóias de alunos. Que fossem para o inferno, pois envergonhavam a casa rosa. Se a maioria foi aprovada, quem ficou não tinha valor, só lixo.
Esse lixo tinha família, tinha expectativas, sonhos. Esse resto não recebeu um apoio que seja, foi ouvido, questionado. Já se sabia a resposta. E, como ninguém fez nada, nada a corrigir.
Lembrei-me do Hermenegildo Santa Cruz Filho, infelizmente já em outro plano. Eu, ao adentrar a escola, de paletó de brechó, fui juntado aos outros e levado pelo S Cruz, para a companhia de destino. Nas férias. O que fazia aquele sujeito ali? Tempos mais tarde, eu perguntei o porquê daquela atitude. Ficou com vergonha de chegar em casa, na distante Nioaque, com o fracasso na mala. Só voltaria quando estivesse aprovado. Por que ficou rép? Trote. Depois desanimou e caiu. E ninguém fez nada por ele. Aquilo me marcou muito. E também por causa do "agregador" trote, quase infindável, desisti dos estudos e caí. Assumi minha faixa de resto, lixo. Que maravilha, para quem tinha sido aprovado na Escola Técnica Celso Sukhow da Fonseca, após um vestibular do cão e ter abandonado tudo para ser militar.
Trotes da EsPCEx, passaporte para o inferno. Merecia um filme, dos bons.
Mais à frente, dentro das lembranças, tentarei relatar brincadeiras de gosto duvidoso e fatos decorrentes.