Ainda o famigerado trote...

               Fato ocorrido em 1972, quando estava no 3º ano, mas a maioria da turma já cursava o 1º ano da AMAN. Alguns que, como eu, haviam feito o "curso completo", poderão recordar. Mas sei que todos lembram da figura de "Tiãozinho". Entrou para a Escola em 1970 e ficou bastante conhecido por sua aptidão no atletismo, na modalidade de corrida de fundo. Era venerado por todos, por causa do seu talento nas pistas de corrida (invencível).

               Um aluno de atitudes exemplares de camaradagem, educação e humildade. Não tinha um porte físico de atleta, como os exigidos na época. Era franzino como ele só, mas um verdadeiro AMIGO. Era incapaz de levantar a voz para alguém, muito menos lançar uma ofensa, qualquer que fosse, a seu semelhante. Nunca vi ou ouvi, que houvesse aplicado algum trote na "bicharada", assim como eu, também, tinha decidido em minha personalidade e caráter, não fazê-lo, apesar de ter passado um ano de terror (mas nunca fui recalcado) e por ter sentido na pele o malefício que penetra em nossa mente, corpo e alma.

               Era uma tarde de domingo, meio quente e estava descansando, assistindo à televisão que ficava no vestiário da 1ª Cia (Em 72 alojava o 3º ano), quando alguém foi me chamar, dizendo que a bicharada havia se reunido para dar uma surra no Tiãozinho. Acreditavam eles que Tiãozinho estaria dando trote em um dos bichos, em pleno corredor principal, perto do pavilhão do rancho. Foi uma informação aterrorizadora, que me penetrou o coração e o sentimento fraternal que tinha por ele. Quando em um ímpeto de socorro ao "irmão", saí em disparada pela ala da 1ª Cia e virei à direita no corredor principal e vejo a cena mais aterrorizante ainda; na distância de uns trinta metros, estava Tiãozinho conversando com o "bicho" e uns vinte metros além, vinha um bando de "bichos", acho que havia mais de cinqüenta, agrupados em fileiras de sete ou oito, como se fosse um motim, vindo em direção a Tiãozinho, com expressões de revolta e fúria. Não sei de onde me veio a idéia, mas sei que o sentimento de camaradagem e lealdade ao "irmão", foi maior naquele momento e, sem pestanejar, parti em direção ao bando, dando ordens de recuarem para a Cia deles, foi quando tentaram fazer alguma resistência e então, usando da força que me veio pela determinação e adrenalina, saí agredindo  os que estavam na frente do grupo, dando tapas, socos e pontapés, que para minha surpresa e alívio, não houve reação dos mesmos. Foi quando percebi que atrás de mim já havia alguns colegas do terceiro ano e por isso a "bicharada" não reagiu. Com isso consegui colocá-los para dentro da ala e fechar a porta de ferro sanfonada, encerrando ali o episódio. Tudo por causa da maldita e maléfica atitude psicótica do trote inescrupuloso, que alguns praticavam naquela época.

               Mas esse episódio, ainda me rendeu uma "detenção", por ter agredido um dos "bichos" no meio daquele bando, que estava de serviço de plantão e tentava fazer com que seus colegas voltassem para a ala; só que na minha fúria cega, não percebi o braçal do aluno e acabei derrubando o mesmo com uma "banda". O garoto acabou dando parte e por isso fui punido. Ainda me lembro de que alguns dias depois pedi desculpas ao mesmo e ele aceitou e entendeu minha situação; não lembro o nome do aluno, mas sei que era um bom garoto. Até a próxima!