Cada um de nós, da velha guarda, tem um rol de estórias vividas na casa rosa. Entrei em 69 e fui parar na terceira companhia, cujo comandante era o então capitão Sant'Anna, artilheiro, hoje vivente em Balneário Camboriú, SC, na faixa dos oitenta anos. Enquadrado "no" A-9, não tinha a menor idéia de como seria aquele ano para mim. Então os trotes começaram, vindos de tudo quanto é canto. Ali aprendi a escorregar pelos cantos e sombras para viver um pouco de paz.
Um detalhe, porém, me chamou a atenção: os réps da turma nunca, mas nunca mesmo, levantaram a voz para nós. Eram, na verdade, os guardiães, nos orientando no seu alcance e ajudando dentro das possibilidades. Do grupo, um era extremanente palhaço (a figura inesquecível de Contatto), outro, mais quieto, vinha em socorro silencioso - Carlos cavalão (que saudade...) e assim por diante. Nem sei se posso dizer que "o" A-9 teve sorte, pois as outras turmas também tinham seu estoque de réps particular e não tínhamos muito tempo para sair navegando à procura de encrencas. Nós tínhamos "nossos" réps e era o que bastava. E, ao fim do ano, alguns deles não lograram sucesso e foram embora. Como sempre se alinharam conosco, deixaram seus nomes para não serem mais esquecidos, pelo lado bom, diga-se de passagem. Lá na frente, na AMAN, pude contar com a amizade do Pedra e do Otacílio. E os outros? Willian Rikillss voltou para o Rio, Contatto retornou para Americana (acho que era de lá) e o Carlos Silva para Lorena, sua encantada cidade. Este último, pediu passagem e foi para o plano superior de onde nos vigia. Grande exemplo de camaradagem que aqueles molecões nos deram. Eram moleques. Hoje devem ser avôs ou próximo disso.
Havia gente de toda ordem. Um dos marcantes chamava-se, por alcunha, Cariri. Uma personificação do mau caratismo em pessoa. Postava-se na primeira companhia, porém a fama (que coisa ridícula) ia longe. Recordo de uma visão que tive do sujeito, que estava de serviço de cabo-de-dia e "auxiliava" o sgt-de-dia na formatura da bicharada. Em dado momento, tirou o cinto de guarnição, aquele mesmo de dez bolsos para guardar munição e virou, com toda a violência que pode, nas pernas de quem estava possivelmente fora de alinhamento. Não foi só uma vez, não, foram várias. E ainda gritava, o louco. E quem era esse desajustado? Um ex-rép de 67, que guardou rancores e os vomitava, acrescido de suas falências morais e psicológicas, os seus ódios. Havia oficiais vendo e permaneceram omissos, como a temer uma reação incontrolada do dito. Como não lhe cabia espaço na carreira militar, pois a Providência é sábia, foi-se para a rua, tentar vender livros em Campinas, tal qual um mascate. Na dura realidade, deve ter aprendido a ser humilde e um pouco mais humano, para ter direito a um mero prato feito (PF) de botequim.
Na 3ª Cia, um personagem esdrúxulo, de nome Radamanto (quem não se lembra ?) pegou o Oliveira Freitas, gaúcho pavio curto, meu vizinho de armário, para encher o saco. Mexeu no armário do bicho, pegou o que bem entendeu, mandou engraxar sapatos, passar roupas, os diabos. Radamanto, terceiro ano, cheio de autoridade, gostou de aporrinhar o coitado do sulista. Volta e meia e lá chegava o bonitão, como se julgava. Bem, o "problema" que ele desconhecia é que o tal O. Freitas tinha um mano no terceiro ano da AMAN, de Cavalaria. Logo no ano seguinte, ele estaria na casa maior. Num fim de semana perdido daqueles, e eis que aparece o cadete todo emperequetado, de espadim e paramentos, na companhia. Iria passar o fim de semana na Prep. Quando o Radamanto o viu se chegando ao seu escolhido bicho, gelou. Eu estava meio escondido em meu exíguo território e só vi quando o cavalariano fitou o trotista e o chamou. Veio como ovelha. Deu o recado básico: iria tê-lo na Academia no ano seguinte. Que se preparasse, o infeliz. A semana continuou e o quadro se transformou por completo para o gaúcho. NINGUÉM mais o perturbou. Que eu saiba, Radamanto durou muito pouco na Academia. Escafedeu-se.