Trote invertido

               Das infindáveis estórias de sofrimento causado por trotistas, sempre ocorrem alguns fatos hilários. Talvez devessem ser relegados ao canto das memórias desnecessárias, lugarzinho carregado de lixo das vivências sem valor. Mas, como diz um prescrito popular que, aparentemente, o que não tem valor para um, o tem para outrem.

               Corria o ano de 69, já no avançado dos meses e a perturbação da paz ainda era constante. Se não era por um segundo ano, o terceiro se fazia presente. Não tinha escapatória. Amizade com um deles? Muito difícil.

               Num fim de semana de aluno sem dinheiro, coisa mais que normal, estava eu tentando achar um caminho de fuga aos profissionais do desconforto. Dou de cara com um rép da A-8, que não se dava ao trato de tirar ninguém do sério. Aquele dia, por motivo desconhecido, determinou-se a achincalhar com um bicho e eu estava em seu caminho. E então começou a ladainha. Tentei sair de perto e nada. O estoque de paciência apresentava o fundo do tacho: estava a ponto de explodir com quem quer que fosse o trotista, nem que desse a cara o demo. E quem era o tal ser mitológico? Santa Cruz!! Não, não é uma expressão de louvor, mas o Hermenegildo Santa Cruz Filho.
               Explodi de raiva e parti para cima afim de tirar o ódio agarrado e grudado em mim. O homem se assustou e tentou fugir e saí atrás, louco para pegá-lo e fazer minha justiça. Corri numa perseguição tresloucada e nada de alcançá-lo. Demos duas voltas em torno da escola, dentro daquele uniforme de maluco de hospício. Nunca mais vi coisa tão zureta em minha vida. Vestes de instrução, sapatos pretos e bibico. Impensável. E ninguém reparou em nós, dois camaradas em correria sem rumo. O S. Cruz cansou e foi parando próximo às quadras. Eu e ele podres de cansaço. Entregou-se e disse que podia dar -lhe os tapas, já que não tinha mais força para reagir. Agarrei-o pela gola e fitei bem nos olhos. O que fazer? Minha raiva se transformara em suor e me sentia um verdadeiro idiota e ridículo naquela situação. Não sei explicar como começou, mas iniciamos uma risada cheia e não parávamos mais. Sentamos no chão de tanta risadagem.

               Ali acabou a relação ruim para nascer uma outra de afeto de irmãos. A amizade prosseguiu por dentro da AMAN até a formatura do grande colega. Recordo que, no final de 75, no encerramento do ano letivo, prestes a entrar de férias, fui ao seu encontro e trocamos um bom aperto de mão, desejando, mutuamente, extensos sucessos. Quiz o Destino que não mais o visse. Tomei conhecimento que perdera o amigo prematuramente o que me fez sentir o vazio das perdas irreparáveis. O aluno da cara de índio, de Nioaque, abandonara o mundo dos terrenos e enfunara velas  por entre as nuvens e por lá ficou. Foi seu último trote aplicado em mim. Este, jamais poderei tirar a forra. Deve estar rindo, rindo de mim.