Nos diversos grupos sociais, ditos homogêneos, sempre há calosidades aqui e acolá, quase que envoltos em mistérios e nebulosidades, causadores de temores e precauções em diversas amplitudes. E, sendo um nicho por demais fechado, por que não a "nossa" EsPCEx?
Dentre os tantos: o capitão sem cabeça; luzes extraterrenas vagando perto da vila dos oficiais; sons estranhos nos alojamentos escuros e vazios, existia uma folclórica estória da panqueca diarréica, terrível por não dar possibilidade ao desavisado sorvente, de ter um vaso sanitário ao alcance de uma descarregada salvadora. Sabedor de tal ameaça, eu tinha em meu armário uma dose dupla de bitter Campari, lacrada, à espera de uma ação inimiga. Era um santo remédio, avisara meu pai. Bem, como todo bicho, não tinha direito às misturas, somente ao arroz e feijão.
Num dia daqueles comuns e aparece uma bandeja cheia das tais panquecas - talvez duas para cada um. Os veteranos olharam aquilo, depois para nós, os últimos a comer, e veio a decisão do comando maior da mesa - Bicharada! É tudo de vocês! E têm de comer!
Eu tinha minha arma de defesa aproximada, um quase segredo de estado, da envergadura da máquina de criptografar alemã de II GM, o ENIGMA. Comi umas três, com satisfação, afinal, misturas assim, só nas férias ou no ano seguinte. A veteranada ria às bandalhas, sabedores dos contra ataques intestinais. Acabado o almoço, fui ao meu recanto de armário e engoli a tal poção milagrosa, amarga feito fel. Por segurança, uma boa cota de papel higiênico nos bolsos, porque ter fé é uma coisa, fanatismo é outra. Vai que o tal bitter não funcionasse ou, em pior hipótese, a arma química inimiga fosse imune à proteção líquida.
Mais tarde, vi gente voando aos banheiros, amarelos ou esverdeados, à cata de uma louça branca acolhedora de bundas dos mais diversos matizes. Meu Campari funcionou, e bem. Fiquei bom tempo sem gastar meu PC, código de conhecimento exclusivo de alunos do EB. Eu deveria ter tomado somente a metade, mas... e o medo?
Coincidência ou não, em 1970, a iguaria voltou às mesas. E eu, de novo, fiz minha proteção, agora, na dose correta. Aulas de Física à tarde e em determinado momento, o ar mudou de insípido para poluído. A ação devastadora se fazia presente. O professor, um coronel de Cavalaria aposentado, metido a pagar mistério de sua vida heróica na Arma Ligeira (servira na fronteira com o Paraguai), cujo nome me foge à memória, levantou-se da cadeira, meio apertado, e saiu "por um momentinho", como se já tivesse sido atingido em cheio e vazasse...
Ficamos poucos na sala. De curioso, também saí e fui assistir, de puro maquiavelismo, os estragos que uma simples panqueca poderia causar. Na porta do banheiro, o sufoco de gente abrindo fivelas, fazendo fila. O vapor, insuportável, não era problema aos malfadados combatentes sem trincheiras: um vaso! E na falta, um dos alunos virou o traseiro para o mictório e atirou sua carga, sem o menor constrangimento. O aguaceiro acre foi-se embora, para alívio do arataca. Voltei para meu canto na sala "do" A-9. O mestre retornou troncho, acinzentado. Naquela tarde, as aulas ficaram para segundo plano, dadas as cargas seguidas de retiradas para os espaldões de alívio.
Será que foram as panquecas? Por que só as serviam uma vez por ano? Seria uma medicação contra vermes (se positivo, os coitados saíram em levas...)? Nunca saberei responder. Já se vão quarenta anos e é bem capaz que quem arquitetou tal façanha não esteja mais entre nós, por dois possíveis motivos: idade muito avançada ou encaminhamento proposto coletivamente para que se encaminhasse aos subssolos quentes da Terra, ou seja, todo mundo mandando-o para o inferno. Salve o bitter Campari, meu salvador antídoto para as armas químicas.