Agora há pouco, quando relatei o episódio das panquecas, delícia temerária, lembrei-me de um fato que se deu com o tal professor de Física. Estávamos lutando com o volume dois do livro do Dalton Gonçalves e o homem de jaleco branco só nos atormentando com as suas prosopopéias de velho cavalariano. A turma de réps, fatigada com as mesmas historietas, não via a hora do intervalo para ter um refresco, como um intervalo de um round de lutas. Exercício daqui, um após, e o coronel resolve ir ao banheiro.
A singularidade do personagem principal do enredo da estória, é que ele sabia resolver os exercícios copiando de um caderno tático e todos nós sabíamos disso. Rép que se preza tem que montar artimanhas e, lógico, a rara oportunidade estava ali, na nossa frente. O Antônio César Mazur, o Véia (infelizmente já em outros cantos do Universo, se não me engano em 2003, quando pegou seu passaporte e foi se juntar ao Monção e Camposana e dar uma de arlequim celestial) foi até à mesa e guardou, consigo, o documento de soluções. Mestre de volta, dá de procurar o caderninho e nada. Mazur, na maldade, levanta-se e, com todo o respeito, pede uma solução para determinado exercício do Dalton. Pronto, deu o desespero no professor. Sem o caderno, nada feito, como a copiar a propaganda: sem RedBull, sem asas! O mestre, para não ficar em condições subalternas em relação ao aluno, foi à lousa e a encheu de fórmulas astronômicas. Em dado momento, nosso colega pede permissão e diz que achou uma resposta. Vai ao quadro negro e, com meia dúzia de equações, mata o problema. Vitória soberana e inquestionável. Mas não para o professor, prejudicado na performance e diminuído na autoridade. Refutou a solução, dizendo que foi um acaso ou coisa de mesmo porte. E ficou no quadro, desenvolvendo um périplo de fórmulas e conjecturas mirabolantes, sem chegar a lugar algum. Acabou a aula. Propôs-se a levar, para a próxima aula, a solução padrão. E assim fez. Um quadro negro repleto.
O caderno, nosso refém, foi recolocado dentro da gaveta, de volta, uma semana depois, para alívio do coronel-mestre em Física. E assim voltamos à normalidade. Um detalhe interessante é que a solução do Mazur não saiu do tal aparato de escudo - o caderno de respostas, mas da própria cabeça do Véia. Um gênio. Que Deus o tenha recebido com festas e foguetório.