A faca, o caneco e o chaveiro

imagem de Otacilio - Gatão

 

                                         A facaO CanecoO Chaveiro
 
               Trecho de carta a meus pais: “Sobre o melhor assunto na escola, eu receberei até o dia 5 deste mês de junho de 68 (Soldo de Maio), o soldo que desta vez é  NCR$ 3,48” ...
 
               Trecho de outra carta:... “No mês passado eu tinha recebido NCR$ 4,98 (Soldo de Junho), descontando uma porção de coisas e nêste mês para minha sorte eu recebi 3 notas de 5 mil e um punhado de moedas dentro do magro envelope que guarda o nosso pagamento. Sobre o dinheiro que veio pelo Banco da Lavoura para complementar o minguado pagamento, eu ainda não tinha recebido aviso do banco e então resolvi telefonar para o banco e êles me disseram que tinha chegado dia 25”...
 
               Aqui cabe uma observação para se ter uma idéia dos nossos proventos: Em 1 de junho de 1968, um par de luvas de lã verdes custava entre 15 e 18 mil Cruzeiros Novos. Havia meses em que alguns alunos além de não receberem nada, ainda ficavam devendo ao Furriel.
 
               O primeiro ano (bicharal) foi de fato muito apertado em todos os sentidos. Não bastasse a dificuldade de ajustamento à disciplina militar, distante dos familiares com seu apoio, havia a grande diferença no método de ensino comparando com aqueles a que estávamos acostumados nas escolas que freqüentamos anteriormente. Menos certamente para os oriundos de Colégios Militares. Havia ainda os famigerados trotes que levaram muitos a repetir o primeiro ano o que muito contribuía para o jubilamento (repetir duas vezes) e a conseqüente exclusão da Escola.
 
               Outra dificuldade que pegava eram as despesas no primeiro ano. Além do irrisório pagamento que recebíamos, ainda tínhamos (os mais visados pelos veteranos trotistas) que entregar a um ou outro, principalmente no retorno de marchas e de acampamentos, itens que eles tinham “extraviado” como cantis, canecos de alumínio, marmitas, talheres articulados, paus-articulados de barracas, estacas de queixo (de madeira ou de ferro) e um montão de outras coisas. Muitos desapertavam na bicharada. E no soldo vinha indubitavelmente o desconto por termos extraviado isso ou aquilo.
 
               O Erthal citou esses dias aqui no site como ele ficou sem todo o conteúdo de seu precioso rolinho de fita durex, indispensável nas aulas do Souza Lobo para afixar os papeis nas pranchetas de Desenho.
 
               Como se não bastasse, havia aqueles que faziam rifas de tudo. Certa vez fui obrigado a comprar uma do Cristo-Redentor que estaria sendo rifado no Rio de Janeiro. Não fiquei sabendo se algum conhecido ganhou.
 
               Outro gasto era uma Corrente (Pirâmide) que a cada ano por não terem mais para quem passar, empurravam para a bicharada. Pra variar, tive que entrar. Mas pelo menos ganhei um par de sapatos Samello. Tal troféu aparece nos meus pés na foto (Fuga de trote a galope) que postei tirada no Castelo com a Escola ao fundo.
 
               Acho que com a mudança do Comando do Cel Albuquerque para o Cel Rosa em outubro ou novembro de 69 parece ter minorado em muito os problemas enfrentados pelos alunos do primeiro ano principalmente. Havia inclusive Oficiais que costumavam dar um trotezinho vez ou outra. Tenho comigo a impressão de que ainda grandes empresas enfatizam na formação de líderes, o tipo autocrático ou por coação, deixando em segundo plano os tipos democráticos (persuasão) e liberal (Indução).
 
               Em carta escrita a meus pais no dia 12 de novembro de 69, assim me referi: “De novidade aqui só há o comandante. Ele está sendo rigorosíssimo na apresentação pessoal de cada aluno ou soldado. Isto é, tem-se que andar com as duas divisas, uniforme limpo, cabelo cortado, etc... e probiu os trotes.
Ele (o comandante) já desligou nesse mês, uns 10 alunos”....
 
               No ano de 1968, um grande amigo e conterrâneo que passou para a EPCAr, assim se referiu em parte de  cartas explicando que lá também, apesar de em intensidade infinitamente menor, ainda havia trote:
Em 5 de maio de 68: ... “O Comandante proibiu o trote e ainda no ano passado foram mandados embora uns 40 que desobedeceram”.
 
               Em 30 de junho de 68:... “Eu, apesar de algumas horas de desânimo, humilhações, ainda não pensei em pedir desligamento”.....
 
               Atribuo a característica que induz ao trote nas escolas, tanto em estabelecimentos militares como policiais e universidades, à falta de maturidade dos jovens em decorrência da pouca idade, da inexperiência de vida em grupo, deficiências na formação religiosa e a possíveis rancores oriundos das diversas situações estressantes e de depressão por que passam alguns. Vemos ainda hoje, alunos universitários em pleno sol de meio-dia, pisando descalços em ruas às vezes sujas e de piso em elevada temperatura, com os poros dos seus corpos tapados por tinta e pedindo moedas ou notas, sendo que alguns deles, algum dia, poderão decidir acertada ou erroneamente sobre nossa saúde.
 
               Mas a partir do primeiro ano como Rep, até ao terceiro ano, consegui controlar minhas polpudas finanças. Dava até para comprar lembranças na cidade ou no interior da Escola, num espaço parecido com uma garagem que havia na extremidade esquerda (olhando a Escola de frente), mais ou menos na direção da torre. Era onde nosso grande amigo Brawerman dava uma mão de vez enquanto.
.
               Comprávamos canivetes, facas, relógios analógicos de pulso Seiko (que exigia balançar o pulso para dar corda), lápis HB, 2B e 2H, blocos de carta, envelopes, cola, durex, meias para educação física e até mesmo o antiqüíssimo bombom Sonho de Valsa.
 
               Lembrei-me ao ver o que o Erthal (Pombo) publicou quando mostrou a foto daquele armário (citado por ele como “Nosso ApErthalmento”) que era tudo que tínhamos na época e vi que também ele possuía a faca com cabeça de águia e a figura de uma cabeça de porco-do-mato em alto-relevo na proteção da mão junto a lâmina. Eu ainda tenho a minha.
               Foi de muita utilidade nos acampamentos até para fazer aquele estrado de madeira que colocávamos no chão da barraca para dormir sem que a água de inesperada chuva viesse a nos incomodar pela noite adentro.
 
               Em recipientes semelhantes a esse caneco da foto, tomávamos aquele café matinal no Rancho para começar o dia-a-dia bem alimentados. Lembro-me de um detalhe que me diferenciava da maioria. Eram as oportunidades em que o leite do café-com-leite tinha sido ligeiramente queimado ao ser fervido dando um sabor diferente, que eu até gostava.
 
               O chaveiro acredito que a quase totalidade tenha comprado já que certamente o segundo ano em 1970 foi a melhor época para todos nós que tivemos a felicidade de ser comandados pelo Dizioli (que está presente e registrado aí no nosso Site). Era o Comandante da Segunda Cia. Foi de fato um ano muito feliz
.
               O “Ovelha” poderá a qualquer momento falar mais daquele espaço de utilidades que nos permitiu comprar  “ene” lembranças e presentear nossos familiares e amigos.
 
               Era um espaço que hoje em dia chamaríamos de loja de conveniência. Naquela época acho que não era conhecido por esse termo. Talvez fosse armarinho ou coisa parecida.
               Armarinho hoje é o que respiro, tão logo ponho o pé na rua.
 
Clique abaixo em Zoom para ampliar a foto.
 
 
 
A faca, o caneco e o chaveiro