Ataque cruel e fatal

               De minha postagem anterior, citei os grupos em teste que transitavam em circuito cheio de estrepolias e emoções, dignas de um filme de ensaio de guerra. Gente chegando, tiroteio, alguns palavrões e prosseguimento do percurso.

               Depois de umas tantas "equipes" de vítimas de meus tiros passarem e eu a postos, pronto para descarregar meu fogo da desordem. E aparece um grupo comum, nada de especial. As cenas se repetem, o ferido levado embora e, logo após, uma gritaria provinda de uma mata próxima. Não estava no roteiro o que eu acabara de ouvir. Eram reais, de desespero. Fui até o tenente e o avisei do ocorrido. Voltei para meu posto de observação e tocaia, conforme ordem do chefe. Senti algo estranho, certo mal estar, uma interrupção sem nexo. Tenso, apareceu o oficial e me manda recolher toda a munição restante, ainda muita a ser gasta. As moças foram embora. A velha estória: quem fala demais dá bom dia a cachorro, logo cumpri a determinação e nada perguntei. Também, que diferença faria?

               A expressão pesarosa denunciou: alguma coisa de grave se dera lá em cima, na mata.

               Ao voltar para o acampamento a triste notícia: o Azenvel falecera, após o seu grupo ter sido atacado por um enxame de abelhas. Eu tinha minhas razões...  Depois me relataram o fato, com algumas variantes. A cachopa estava num pau oco para uns, no chão para outros, mas o que interessa é que alguém tropeçou ou bateu na colméia e a resposta de defesa foi imediata. Atacados por infinidade dos insetos, procuraram se safar, se desfazendo de seus equipamentos quem teve tempo, e cada um desceu a encosta numa fuga desesperada. O infeliz colega caiu num poço abandonado e acabou indo ao fundo.

               Gente tomada de ferrões por todo o corpo foi embora para longe do ataque. Os relatos, em unanimidade, ensaiavam a aflição nas palavras.

               O resgate do Azenvel deu-se por entremeio de desacertos e ordens controversas. O trauma passou a fazer parte daquele amontoado de alunos não servidos pela sorte. As dores físicas se foram logo, com a aplicação de medicamentos apropriados. E a visão do terror?  O nó da perda, do até naquele instante um mero número de integrante do malfadado grupo? O vazio do armário, sem nexo? Foi no final do ano de 1970.

               As responsabilidades, essas nenhum de nós, alunos espectadores, viemos a saber. Ficaram os questionamentos soltos no espaço: quem deveria ver as rotas que poderiam ser assumidas; o poço descoberto e na espera; o resgate demasiado demorado, embora inútil, tal a gravidade da queda e etc.

               Para meu azar, se é que pode se dizer isso, o armário dele estava no mesmo setor do meu, próximo ao banheiro. De manhã, de tarde e a qualquer hora até o fecho do ano, naquele setor a expressão ficou mudada.

               A última imagem que tenho do Azevel: quando o grupo estava se retirando e, não sei porque, resolvi aparecer por entre as pedras e ele, por nada, se virou, me olhou e fez um aceno, sorrindo. Entrou na mata e se foi para sempre.

                  Às crianças, quando perdem um ente querido, os adultos as explicam que viraram estrelas.

               O hino da Preposa também fala das estrelas no firmamento. Em meus devaneios da criança embutida no meu ser, acho que ele virou mesmo uma estrela, perdida no meio dos trocentilhões de sóis da abóbada celeste. Quieto, como sempre e continua no brilho.